TRILÖBIT Guitarra, baixo, bateria e laptop estão na formação desta eclética banda de rock, que, neste show, mostra canções presentes em seu primeiro álbum, "Tutorial" (2009). www.funhouse.com.br. Funhouse - r. Bela Cintra, 567, Consolação, região central, tel. 3151-4530. 200 pessoas. 1h30. 60 min. Não recomendado para menores de 18 anos. Ingr.: R$ 10 (mulher) e R$ 15 (homem). CC: D, M e V. a c
ELEELA RESGATA A SAGA DE BOOKER PITTMAN, O JAZZISTA NORTE-AMERICANO QUE CONSTRUIU FAMA NO BRASIL REGADO A MUITA MÚSICA, PINGA E SEXO
No ano do centenário de seu nascimento e do 40º aniversário de sua morte, o clarinetista e saxofonista Booker Pittman é lembrado como sinônimo de talento e liberdade. Na música, tocou com grandes nomes do jazz, como Count Basie e Louis Armstrong. Na vida, usou o instrumento para conhecer o mundo e escrever uma história rica e fascinante. “Eu e meu amigo parecíamos uma visão, com nossa cara inchada, daquele matador (sic) de homem [cachaça]. Ninguém nos olhava amigavelmente, mas a algumas milhas fora de São Paulo mudei isso, pois peguei o meu sax. Menino, meus amigos arregalaram os olhos! Certo, lá estava eu viajando novamente: novos lugares, novas caras. Lógico, eu toquei o meu melhor! Estava feliz, viajando. As rodas do trem cantavam melhor do que qualquer baterista. Isso não era nenhuma boate ou cabaré. Isso era eu, fazendo o que mais gostava, novas aventuras”, diz Pittman no livro Por Você, por Mim, por Nós, de Ophélia Pittman (Editora Record, 1984), esposa brasileira do músico.
O espírito cigano e a maneira descomprometida e livre de enxergar a vida de Booker Pittman construíram uma trajetória riquíssima e recheada de peculiaridades. “O cara nasceu em Dallas, em 1909, coincidentemente na mesma rua em que o presidente John F. Kennedy seria assassinado. Seu avô, Booker T. Washington, foi o primeiro negro a fundar uma universidade”, conta o cineasta Rodrigo Grota, 29. “Ele já tocava na escola, mas quando decidiu se dedicar à música foi para Kansas City e começou a tocar com o grupo do Count Basie”, acrescenta. Grota dirigiu um curta sobre o instrumentista – que leva o mesmo nome do músico – e vem acumulando prêmios em festivais pelo país (levou o Kikito de melhor curta no Festival de Gramado 2008) e no exterior. “Um dia ele ouviu um senhor que tocava na orquestra de Basie dizer que estava cansado de viajar, que não agüentava mais a estrada e iria se aposentar. Ali percebeu que seu instrumento poderia se tornar um passaporte para o mundo”, diz o diretor. E as viagens de Booker não tardariam a começar. Elevou a São Paulo, Pernambuco e Paraná. Rodrigo conta que Booker “também morou na Argentina, onde se viciou em cocaína e fugiu para o Uruguai para tentar se livrar do vício que acabou substituindo por cachaça e maconha”.
ASCENSÃO E QUEDA “Nós fomos diretamente para a casa do meu amigo, onde sua mãe e dois irmãos menores nos receberam calorosamente. Tomei logo um banho e tentei ficar sóbrio. Melhorei um pouco, comi uma típica refeição [paranaense] e estava pronto para dormir. Meu amigo disse ‘ainda não’, e me levou para conhecer o meu futuro patrão. O Clube era um lugar de jogo com cartas e dados onde os plantadores de café ficavam algum ou mais tempo. Quando subimos para o 2º andar, fomos examinados rapidamente dos pés à cabeça. Eu olhei para a esquerda daquele quartinho e vi pistolas de todas as marcas penduradas na parede. Era o check room. Eu sorri. Nem no Texas tinha um check room. Aqueles fazendeiros eram todos ricos, cheios de dinheiro. Aquela terra vermelha do Paraná, com personalidades fortes, me fez lembrar de alguma forma Oklahoma.” Assim foi a chegada de Booker a Londrina, no Paraná, contada pelo próprio. “Sua derrocada com a cachaça também começou ali”, conta Ranulfo Pedreiro, 39, jornalista responsável por uma grande pesquisa sobre o músico. Pedreiro diz que o material encontrado é muito vago. “É difícil achar dados confiáveis. Seu espírito nômade não o deixava parado por muito tempo no mesmo local. Era um apaixonado pela noite e pela pingam, que passou a preferir ao uísque”, acrescenta. E Booker confirma: “Lá, embaixo, na esquina, tinha um bar, aberto durante a noite. Em todos os intervalos eu ia até lá e tomava a minha dose de cana. Naturalmente, nunca ofendia os fregueses. Sentava, tomava alguns goles de uísque, pedia licença para ir ao banheiro, corria, rapidamente, para o bar na esquina, tomava quatro ou cinco goles de cachaça, e voava de volta pelas escadas para a mesa, pedia desculpas pela ausência e acabava o resto do uísque”.
O músico encontrou em Londrina uma cidade com muito dinheiro circulando devido às fazendas cafeeiras. As “casas noturnas” pipocavam. Além das mesas de jogos que odiava, Pittman convivia com moçoilas de todos os tipos que se ofereciam para os endinheirados fazendeiros. “Senti alguma coisa tocando dentro nesta atmosfera nova e diferente. Apesar de ter sido criado no Texas, nunca fui ligado à vida no campo. Dallas, naquela época, era uma cidade em crescimento, sem cavalos ou vacas para ver e muito asfalto. Eu agora estava sendo apresentado a um cenário diferente e mais fascinante do que antes. Naquela noite, toquei com um entusiasmo novo. Praticamente todos os homens usavam botas e chapéus de aba larga. As mocinhas do cabaré, em sua maioria, eram de São Paulo.” A essa altura o saxofonista já tinha se rendido ao vício da cachaça. “O Paraná é muito frio, especialmente à noite. Mas eu tocava à noite, tomava aquela cachaça forte e quase não sentia frio.” Nesse cenário digno dos grandes cabarés de Nova York, o músico construiu fama. Mas a pinga o fez torrar todo o dinheiro que ganhou e logo começou a trabalhar a troco da maldita. Ranulfo diz que Booker chegou ao fundo do poço. “Mendigou trocados pelas ruas e perdeu o saxofone por causa da bebida. E o mais incrível é que mesmo assim não deixou de viajar. Como não tinha dinheiro, começou a circular por cidades da região como Santo Antônio da Platina e Cornélio Procópio. Dormia em qualquer lugar.” Um dia estava pintando as paredes de uma casa de reputação duvidosa em Cornélio quando foi procurado por um amigo que trazia um recorte de jornal que noticiava sua morte. Buca tomou isso como um sinal.
FÊNIX MUSICAL Em 1958, além de vencer sua primeira Copa do Mundo, o Brasil recebeu a visita de um ícone da música americana. O trompetista e cantor Louis Armstrong aportou em São Paulo para uma apresentação. Booker passou por lá para rever o amigo e acabou sendo convidado a participar da banda. Durante o espetáculo, uma certa Ophélia não conseguiu desgrudar os olhos do palco. Ao final do show, a moça passou batido pela multidão que cercava Louis e, arrastando sua filha Eliana pela mão, se aproximou de um cara calado que acendia um cigarro. Era Booker Pittman. “Ele era amigo de infância de Louis. Mamãe já conhecia o Buca por causa de uma reportagem publicada na revista O Cruzeiro. Eu devia ter uns 11 anos. A maior preocupação de mamãe era que ele não tocasse à altura de Armstrong naquele dia, mas qual o que. Não estarei exagerando em dizer que foi o músico mais aplaudido. Enquanto todos paparicavam o Louis, mamãe tomou coragem e se apresentou ao Booker”, conta Eliana Pittman, cantora e filha adotiva do músico. Com muito custo, tempo e uma paciência de Jó, Ophélia conseguiu quebrar a aversão que o músico sentia pelo casamento – ele achava que poderia prejudicar seu espírito cigano. Logo, estavam vivendo juntos. Quando Booker resolveu retomar a carreira no Rio de Janeiro, levou a nova esposa e filha a tiracolo. As duas já carregavam o sobrenome Pittman. Na então capital nacional, Buca retomou as rédeas da carreira, que agora eram guiadas pelas mãos fortes de dona Ophélia. “Papai não se apegava a bens materiais e muitas vezes nem cobrava para tocar. Mamãe mudou isso e passou a controlar a carreira dele. Buca começou a dizer que agora tinha uma família para sustentar e começou a encarar a profissão com mais responsabilidade”, completa Eliana. Ele logo passou a fazer parte da cena musical nacional e tocava com freqüência com os grandes nomes da época, como Dick Farney. No badalado hotel Plaza foi contratado como atração principal da casa. Reza a lenda que um jovem Roberto Carlos ficava na espreita à espera de uma vaga para se apresentar no hotel. “Comecei minha carreira em abril de 1961 cantando duas músicas num show de papai. Fui descoberta como cantora por ele, que me incentivou a ingressar na carreira artística”, relembra Eliana. Em 1964, Buca retornou a Nova York e encontrou um cenário totalmente diferente do que tinha deixado. As gravadoras controlavam tudo e o rock e a música pop estavam se consolidando como gênero popular. Eliana conta que “depois de uns tempos nos EUA ele disse para mim que queria voltar para casa. A casa dele era o Brasil. Em 1966, descobriu que tinha um câncer na laringe. Os médicos queriam fazer uma traqueostomia, mas papai não quis e respeitamos sua decisão. Dizia que não gostaria de ser cortado. Minha carreira estava indo muito bem e comprei um apartamento para ele na Bela Vista, em São Paulo. Ele não gostou muito porque ficava em frente ao cemitério e falava brincando que não queria ficar olhando para o local onde iria morar mais cedo ou mais tarde. Nos mudamos dali para uma casa no Itaim. Foi onde ele morreu, em 1969, com toda a dignidade que merecia” (Booker está enterrado no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro). Há poucos registros audiovisuais de Booker Pittman. As poucas imagens se perderam nos famosos incêndios sofridos pela TV Record – só na década de 60 foram cinco. Na sua volta ao Rio, Booker gravou três álbuns: Jam Session (1963), ao lado de Dick Farney, News from Brazil (1963), já com a filha Eliana Pittman como cantora, e Sax Soprano Sucesso (1965). Os três se encontram esgotados e fora de catálogo.
MAMÃE CORAGEM A cabeleira e costureira Ophélia Leite de Barros vinha de um casamento fracassado e lutava com dificuldades para criar a filha. No Brasil da década de 50, o movimento pela igualdade da raça negra dava seus primeiros passos e dona Ophélia era uma entusiasmada ativista. Quando conheceu Booker Pittman, sua vida mudou drasticamente. “Mamãe virou empresária por causa do Buca. Antes disso, nunca tinha entrado numa boate”, nos conta a filha Eliana. “Ela começou a ficar famosa no meio artístico porque era linha-dura quando o assunto era dinheiro. Pedia aumento e quando tinha que cobrar não tinha papas na língua. Além disso, começou a interferir até nos ensaios”, complementa. A matriarca respeitava muito a opinião da filha e a consultava para tudo. “Quando conheceu o Booker, fez questão de me apresentar e perguntar o que eu achava, se daria um bom marido, essas coisas.” Já carregando o sobrenome Pittman, Ophélia também ganhou fama pela maneira que conduzia os namoros de Eliana. “No começo de minha carreira, ela tomava conta de todos os meus namoros. Naquela época existia o mito da virgindade e mamãe era muito rigorosa. O Adolpho Bloch dizia que, quando eu me casasse, ela ficaria embaixo da cama para ver se a lua- de-mel se concretizaria. Booker definia muito bem a nossa relação e falava de maneira irônica lembrando a função dela como empresária: Booker, saxofone, Eliana microfone e Ophélia telefone”.
A TRAJETÓRIA DA FOTÓGRAFA E ARTISTA PLÁSTICA LONDRINENSE FERNANDA MAGALHÃES É MARCADA POR UMA PALAVRA: GORDURA. ELA ENFRENTOU O PRECONCEITO E A TIRANIA DO CORPO PERFEITO PARA CRIAR UM TRABALHO PREMIADO QUE CORRE O MUNDO
O trabalho da artista, fotógrafa, professora da Universidade Estadual de Londrina e doutora em Artes pela Unicamp, Fernanda Magalhães, é guiado pelos temas do corpo. Fotografias de mulheres nuas, colagens e erotismo. Até aí, nada demais, pois muitos fotógrafos fazem esse tipo de abordagem. O que diferencia a obra da artista é a proposta. Como uma antítese aos padrões de beleza existentes, ela expõe em seus nus o corpo da mulher obesa e, na maioria das vezes, fotografando a si mesma.
“Hoje é muito claro que minha obra discuta a questão do corpo. Eu lanço essas reflexões todas, mas, no começo, fazia muito intuitivamente”, conta. “Olhando meus trabalhos mais antigos, notei que sempre fotografava gente. Tinha feito alguns nus, inclusive. Comecei usando umas lentes que faziam distorção, sempre com o foco no corpo. Já percebia que era disso que gostava, mas não tinha a consciência da temática. Quando fui morar no Rio, em 1993, descobri como nós, que moramos no Sul do país, vivemos cobertos de roupas se compararmos com quem vive numa cidade como o Rio de Janeiro. Lá tem essa coisa do corpo muito forte. Pessoas vão caminhar na praia, fazer exercício e existe uma democracia, porque quem está fora do padrão também vai às praias de biquíni, maiô, nos ônibus, usando roupas mínimas”.
A primeira série da fotógrafa aconteceu em 1993 e, de maneira instintiva, já discutia a questão da ditadura da beleza. Auto Retratos Nus no Rio de Janeiro expõe o corpo da artista de maneira direta por meio de montagens. “Naquele primeiro momento tinha a coisa do incômodo com aquele corpo que não me agradava, porque é um corpo gordo. Então, fiz, digamos, uma plástica. Recortei as fotos e comecei a fazer essas colagens com materiais que recolhia na rua, como pedaços de passagens de ônibus e papéis de bala. Isso foi se transformando em composições. Fiz uma veladura nos trabalhos, que ficaram cobertos por um craquelet feito com papel e cola. Ainda era uma forma de esconder o corpo que eu não aceitava. Esse trabalho foi determinante para o resto, pois era, de certa forma, um questionamento, uma dificuldade do corpo que não se enquadra, esse preconceito todo que existe”. Fernanda não busca eufemismos nem procura palavras ditas politicamente corretas para se referir aos temas que propõe. Não por acaso, seu trabalho de maior visibilidade se chama Representação da Mulher Gorda Nua na Fotografia, que recebeu, em 1995, o VII Prêmio Marc Ferrez de Fotografia, do Ministério da Cultura. “Percebi que, além de discutir o preconceito, eu também estava tentando entender esse corpo que era o meu, e o trabalho se expandiu para o corpo do outro. Percebi que a questão não era só minha, mas uma questão da mulher gorda e, num segundo momento, uma questão da mulher. Por que nunca estamos satisfeitas? Por que sempre estamos buscando um padrão? Desse questionamento surgiu o projeto”.
A série está rodando o mundo com uma exposição itinerante e já esteve no México, nos Estados Unidos, na Bélgica, Finlândia e em várias cidades da Espanha. “O curador espanhol Alejandro Costelloti criou o Mapas Abiertos – Fotografia Latino Americana 1991-2002, no qual entraram fotógrafos latinos-americanos com produção da última década do século 20 e que não fossem artistas que estivessem com foco na vertente do terceiro mundo – índio, pobreza, favela etc. Ele queria mostrar pessoas que tivessem trabalhos que discutissem a questão da linguagem não com o olhar do exotismo, mas, sim, com o da criação”, diz Fernanda. “Comecei o projeto em 1994 e ninguém falava sobre gordura, a não ser para falar de dieta. Quando propus a pesquisa, a proposta era levantar fotografias de mulheres gordas nuas que já existissem ou de outros fotógrafos ou publicados em revistas pornográficas específicas. Queria esse material para fazer um trabalho de colagem. A proposta era criar uma nova representação para esse corpo que normalmente é discriminado”.
“A gordura, hoje, é considerada uma doença e ninguém fala o contrário. Isso é um grave erro. Não penso que seja uma doença, necessariamente. Existem magros doentes e magros saudáveis, assim como existem gordos doentes e gordos saudáveis. Converso muito com médicos e existe realmente uma gordura prejudicial. Os americanos comem uma comida podre, de fast food, e essa gordura é nociva, claro. Agora, existe gordura de constituição. Sempre existiram gordos no mundo e gordos saudáveis. A medicina atual cria um discurso para rebater aquilo que considera grave – e essa obesidade fast food é grave mesmo –; então, vai com toda a força e violência contra o corpo gordo.
As pessoas têm um preconceito misturado com medo. Os gordos têm um preconceito enorme com a própria gordura, porque se sentem culpados. Quem é gordo tem o corpo errado, e esse corpo precisa deixar de existir, quando deveria ser: você não está bem de saúde, precisa emagrecer um pouco, normalizar suas taxas e tal. Isso cria problemas de personalidade gravíssimos. O discurso médico, da moda e da publicidade é um agravador muito grande desse quadro”.
O estudo mais recente sobre obesidade no Brasil é de 2003. Segundo a pesquisa, realizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 40% da população adulta do Brasil apresentam excesso de peso. As mulheres representam 13,1% desse percentual. O índice usado na pesquisa foi o IMC (Índice de Massa Corpórea), pelo qual se divide o peso (em quilos) pela altura ao quadrado (em metros). O procedimento utilizado não consegue detectar o percentual de pessoas que tem algum tipo de problema de saúde em virtude da obesidade, muito menos as pessoas com excesso de peso que são saudáveis. O que realmente importa em toda a discussão, independentemente de pesos e medidas, é que cada um – gordinho ou magrinho – seja feliz.
NA CONTRAMÃO A BRASILEIRA FLUVIA LACERDA, DE 28 ANOS, É MAIS UMA REVELAÇÃO NAS PASSARELAS INTERNACIONAIS
Considerada uma das modelos do gênero mais belas do mundo, Fluvia vem estrelando campanhas nos Estados Unidos há três anos. O detalhe é que, ao contrário de suas colegas, com corpos magros e delineados, ela desfila para confecções plus size. “Nunca tive complexo em relação ao meu corpo, tampouco me sentia inferior às mulheres magras. Apesar da pressão de amigos e familiares, que insinuavam que eu deveria me cuidar mais e perder peso, sempre gostei de mim do jeito que sou”, diz ela, que foi descoberta por uma editora de moda dentro de um ônibus a caminho de Manhattan. A modelo é um grande exemplo de como uma pessoa fora dos padrões pode levar uma vida saudável. Cuidadosa no que se refere à alimentação, a modelo só come arroz, macarrão e pão se forem integrais. Além disso, não ingere comida processada contendo muitos aditivos químicos, como bolos, biscoitos ou batatinhas. “Não aceito ser escrava de dietas; aliás, nunca fiz uma dieta na vida”. Fluvia já fotografou para revistas de diversos países e estrelou centenas de campanhas de moda, nas quais cada curva de seu corpo foi apresentada tão perfeitamente quanto as das modelos magras. O trabalho mais recente – a capa do primeiro calendário nacional das modelos plus size – gerou grande repercussão.
ALÉM DE PRÊMIOS NOS PRINCIPAIS FESTIVAIS DE CINEMA DO PAÍS, A ATRIZ CAROLINE ABRAS NOS CONQUISTOU COM TALENTO, BELEZA E INTELIGÊNCIA
Quando tinha 13 anos e fugia das aulas de ginástica olímpica para assistir a ensaios de um grupo de teatro no clube que freqüentava, Caroline Abras não esperava uma trajetória tão bem sucedida. Hoje, aos 21, a atriz paulistana tem muita história para contar; afinal, vem colecionando prêmios em festivais de cinema Brasil afora. “Quando voltava para casa do clube, tentava imitar o que via nos ensaios de teatro. Um dia, pensei que também podia fazer e fui atrás. Comecei naqueles grupos de teatro de bairro só para meninas; a partir daí, fiz cursos e mais cursos”, conta ela. Dos palcos para o cinema foi um pulo. “Um dia um amigo me pediu para que o ajudasse a bater um texto para um teste do qual participaria. Eu me apaixonei pelo roteiro e perguntei se poderia ir junto. Chegando lá, pedi para fazer o teste. Fiz e, no fim das contas, consegui o papel. Por acaso, esse filme era Alguma Coisa Assim, que me abriu muitas portas”. No Festival de Gramado ela é hors concours. Ganhou um Kikito, em 2006, pelo curta Alguma Coisa Assim, do diretor Esmir Filho, e outro, em 2007, com Perto de Qualquer Lugar, de Mariana Bastos. Este ano, levou o troféu Redentor de melhor atriz no Festival do Rio por sua interpretação no filme Se Nada Mais Der Certo, de José Eduardo Belmonte, que fala sobre jovens de Brasília que tentam a vida em São Paulo – a trama também levou a estatueta de melhor filme de ficção no festival carioca. Carol interpreta Marcim, um malandro andrógino que perturba a vida de todos que o cercam. “O personagem chegou sem pedir licença e, quando me dei conta, estava literalmente tomada por ele. Foi uma guerra desconstruí-lo no fim do processo. Até hoje tenho saudade. É como se ele tivesse sido algum amigo muito próximo. Gosto quando perdemos um pouco o controle sobre o personagem, fica orgânico, natural. Basta encontrar a essência para, a partir daí, ousar, pesquisar, ir além”, diz a atriz. Os prêmios que ganhou não foram por acaso. Ela pensa que, para fazer a diferença, é preciso muita dedicação. “Acredito que, para crescer em qualquer profissão, é necessário ter uma base sólida, ainda mais numa profissão tão incerta como a de ator. Não basta saber atuar com naturalidade, há muito mais por trás disso. Além da teoria, da história, do treino incansável, também é necessário ter sempre uma carta na manga, algo que te diferencie dos outros no mercado. Além dos estudos, o que mais me estimula é a minha história de vida. O ator que faz de coração, com as vísceras mesmo, sabe o quão relevantes são nossos medos, as angústias, fragilidades pessoais e o quanto eles funcionam”. No cinema, Carol gosta de Godard, Truffaut, Tarkowski, Glauber, Polanski, Bergman e outros diretores de primeiro escalão. A paixão pela leitura vem desde os tempos em que dormia na sala de casa, que era onde ficavam os livros do pai. Pegou tanto gosto que hoje adora Dostoievski, Gabriel García Márquez, Kafka, Saramago, Clarice Lispector, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Cesário Verde... Por tudo isso, e muito mais, Carol é nosso tipo de mulher.
O LÍDER DO MUNDO LIVRE S/A, FRED 04, FALA DE SUA PRINCIPAL INSPIRAÇÃO: AS MULHERES
Fred Rodrigues Montenegro, 46 anos, mais conhecido como Fred 04, vocalista e principal compositor da banda recifense Mundo Livre S/A, queria ser o Roberto Carlos de Jaboatão. "Minha mãe me botou pra aprender piano, mas, aos 7 anos, fiquei revoltado com o método da professora e parei. Aos 12 meu pai ficou tão impressionado com o meu fanatismo por Jorge Ben Jor, que me deu um pequeno violão. Não parei nunca mais." As letras das músicas que Fred escreve exibem duas facetas. Uma delas trata de manifestos sociais e exprime suas idéias políticas. A outra é a que fala do sexo oposto. Os temas de protesto cedem lugar às conquistas, aos flertes e à beleza do corpo feminino. Algumas de suas composições são verdadeiras odes de admiração às mulheres e se encaixam perfeitamente com o som percussivo e cheio de suingue do Mundo Livre. Músicas como Mon Amour, Meu Bem, Ma Femme, Alice Willians, Inocência e o hino Meu Esquema destilam sensualidade em seus versos. Em Musa da Ilha Grande, Zero Quatro descreve uma impaciente espera: Eu não vou sair daqui sem ver ela sair da água/Eu não vou sair daqui sem ver ela sair da água/Eu não vou sair daqui sem ver você sair, não vou gostosa... "A musa dessa música era uma menina que conheci no Recife que entrava e saía do mar enrolada em cangas coloridas pra evitar o olho gordo e a cobiça. Ela costumava - e estava certíssima, pois a Ilha Grande vivia infestada de punheteiros - esconder o tesouro", conta ele. "Mas um dia a moçoila deve ter acordado meio distraída, revoltada, ou endiabrada, sei lá. Só sei que ela tirou a blusa, largou displicentemente a canga na areia e enfiou-se de biquíni branco no leito malicioso de Netuno. Aí soou o alerta. Comentei com alguns amigos: 'Hoje eu não saio daqui sem vê-la sair da água'. Daí pra um refrão e pra uma letra inteira não demorou nem dez minutos!" Fred diz que nunca foi um grande conquistador. "Para mim, que nasci, digamos, desprovido de formosura, nunca foi simples. Minha primeira namorada firme eu só descolei na faculdade, quando as garotas começaram a se interessar por meus dotes artísticos e intelectuais. Modéstia à parte, se na época eu não fosse tão tímido e empulhado, teria comido todas as minhas colegas de classe. Mas tudo tem seu tempo." Também lembra que as dificuldades eram maiores para quem não tinha carro. "Minhas amigas feministas detestam que eu conte essa história, mas é a pura verdade. Naquela época nós não tínhamos a menor chance de marcar encontros ou combinar qualquer tipo de programa com as colegas da praia, pois elas, apesar de rirem de nossas piadas, só saíam de carro. Não foi por acaso que a música 'Tentando Entender as Mulheres' se tornou uma espécie de hino dos jovens passageiros de ônibus em várias periferias do país."
PEQUENA MORTE Quando o assunto é sexo, o recifense fala que já fez até música. "Depois de uma transa daquelas, interminável e extenuante, de tremer o quarteirão, orgasmos múltiplos garantidos, Maria [esposa dele] comentou algo em tom de contemplação e felicidade: 'Fazia um tempo que eu não me sentia assim, tão satisfeita'. Na hora pensei com meus botões: 'Fazia um tempo que eu não ficava assim tão morto'. Não é à toa que alguns orientais definem o orgasmo como uma pequena morte." E não é que as preferências estéticas do compositor se alinham perfeitamente às nossas? "Alguém se lembra de quando a Luiza Brunet foi lançada? Ela devia ter uns 17 aninhos e fez um ensaio pra uma revista masculina [foi na ELEELA, Fred], bem no início dos anos 80. Seios não muito grandes, mas bem contornados, bundinha saliente sem escândalo desnecessário, cintura bem torneada... E aquelas pernas? Foi como se uma carreta tripla tivesse passado por cima de mim. Na época, até fundei o CALB (Clube dos Admiradores da Luiza Brunet). Depois, com o tempo, fui descobrindo os encantos das loiras, que são outro departamento. Essas têm uma carência irresistível, tanto que acabei me casando com uma galega maravilhosa. Esse negócio de paixão tem mais a ver com a pele, com o cheiro". Zero Quatro é casado com a coreógrafa e psicóloga Maria Eduarda. O casal tem dois filhos: Caio, de 6 anos, e Vitor, de 2, além de Júlia, 15, filha de Maria. Só que nem os 11 anos de união não conseguiram fazer o músico entender as mulheres como já tentou em "Tentando Entender as Mulheres". "Entendê-las é como tentar discutir sobre o sexo dos anjos. É inútil. Acho que ninguém entende completamente as mulheres. Mas esse mistério é o que mais me fascina. Um misto de força extraordinária e delicadeza. Penso que inteligência é fundamental, até porque não existe mulher feia, existe homem que bebe pouco, já dizia um provérbio chinês." Ahhhhhhhh, Lei Seca...
Só lembrava que tinha que encapar os fios do chuveiro quando dava a primeira mijada do dia. Acordava, ia pro banheiro, tirava o pau prá fora e quando o jato batia na água, olhava pra cima e via a porra do fio desencapado. Aí pensava: "preciso encapar essa porra". Seu desjejum era uma xícara quase pela boca de café preto seguido de um cigarro de filtro vermelho."Filtro branco é de mulher", dizia. Depois de fumar um baseado, ia prá redação do jornal de bairro que trabalhava. Era revisor. O editor ainda tomava o cuidado de não confiar inteiramente no word. Não tinha muito trabalho. Revisar um jornal semanal de doze páginas era moleza. Muito anúncio. Sobrava tempo prá correr atrás de outras coisas. Também colaborava com uma revista de putaria. Mandava textos eróticos e legendas para ensaios ginecológicos de gringas boazudas. Bebia que nem um porco "pra equecer". O quê, ninguem sabia, mas sempre que ia encher a cara gostava de lembrar que "era pra esquecer". Seus contos para a revista Taste eram baseados nas suas próprias experiencias "acrescidas de um molho literário. Liberdade poética só enriquece o texto". Escrevia num velho Pentiun III que "não trocava nem fudendo" e ia tocando a vida entre virgulas do jornal e bucetas da revista.
Fumando as inseperáveis cigarrilhas em seu escritório
EM 2002, ELE DISPUTOU UMA CADEIRA NA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS COM O EX-VICE-PRESIDENTE DA REPÚBLICA MARCO MACIEL. OS ACADÊMICOS ESCOLHERAM MACIEL. AZAR DA ACADEMIA. O ESCRITOR QUE TRANSFORMA VIDAS EM LITERATURA, FALA SOBRE PAULO COELHO, POLÍTICA, CUBA E DIZ QUE ACHA QUE A TV, DA MANEIRA QUE CONHECEMOS, VAI ACABAR.
A ABL preferiu Maciel
O estilo apurado que Fernando Morais utiliza em seus livros foi lapidado em anos de redação e pesquisas jornalísticas. As paredes de seu escritório em São Paulo são decoradas com fotos do autor acompanhado de grandes figuras da humanidade do século 20. Iasser Arafat, Gabriel Garcia Marques, Fidel Castro, entre outros, dão a dimensão exata da postura política que permeia sua vida. Seu faro o levou a transformar em livros as trajetórias de personagens fundamentais para a história recente do Brasil como Olga Benário, Assis Chateaubriand e, agora, Paulo Coelho. No mesmo dia em que seu último biografado estava em Frankfurt recebendo de seus editores uma condecoração pela venda de 100 milhões de livros em todo o mundo, Morais conversou com ELEELA.
No enterro de Santos Dias da Silva, operário morto pelos militares em 1979
Compenetrado, ao lado de Iasser Arafat. Abaixo, troca autógrafos com o fotógrafo Alberto Korda
A primeira entrevista com Fidel a gente nunca esquece
POR QUE A ESCOLHA DE PAULO COELHO COMO PERSONAGEM? Você sabe que as minhas escolhas costumam espantar as pessoas, inclusive dentro de meu círculo. Lembro que quando saiu nos jornais que eu queria fazer a biografia de Antonio Carlos Magalhães, muita gente disse: “Porra, você fez A Ilha, fez Olga, agora vai fazer ACM que é um coronel, PFL...”. Isso se repetiu agora com o Paulo. A escolha encontra explicação na minha origem. Sou jornalista e também fui repórter praticamente minha vida inteira. E o repórter é movido, inicialmente, antes de qualquer outra característica, pela curiosidade. Isso você acaba desenvolvendo cada dia mais com o cotidiano. Toda profissão cria uma natureza adicional para o profissional e a do repórter é a curiosidade. Antonio Carlos Magalhães foi o único brasileiro vivo que tinha convivido com o poder durante 50 anos, com um pequeno hiato no governo Itamar Franco. De Juscelino até o Lula, Antonio Carlos conviveu com o poder o tempo todo. Ou como testemunha ou como protagonista. O jornalista que não se interessar por isso está na profissão errada. O mesmo vale para Paulo Coelho, um brasileiro nascido no bairro de Botafogo e que hoje é mais traduzido do que Shakespeare. Neste momento em que estamos aqui, ele está em Frankfurt recebendo um troféu do Guiness por ser o autor vivo mais traduzido do planeta. Independentemente da vida que ele teve, que foi tumultuada, uma sucessão de tragédias e tal, só esses dados de vendagens, na minha opinião, já justificam uma curiosidade elementar que é a seguinte: quem será o sujeito que vive embaixo da pele desse personagem?. Toda essa explicação é para responder que a escolha foi feita basicamente por curiosidade. Para minha sorte, descobri um personagem riquíssimo.
Ligações sul-americanas: Quércia, Carlos Menen e José Sarney, à frente, e Fernando, ao fundo
EE VOCÊ ERA LEITOR DELE ANTES DO LIVRO? FM Antes de fazer a biografia tinha lido os dois primeiros livros dele, O Alquimista e O Diário de um Mago, por uma curiosidade básica: eu era editor de cultura da Veja e, de repente, aparece um cara que escreveu dois livros que estavam a seis semanas nas cabeças das listas de livros mais vendidos. Gostei, mas não virei “coelhista”.
Na campanha de FHC, em 1978. Fernando é o de barba
EE A POSSIBILIDADE DE UMA BOA VENDAGEM O ATRAIU? FM É evidente que quando escolho um tema ou um personagem, penso na possibilidade de ser alguém ou algo do interesse do leitor e, portanto, algo que leve as pessoas a comprar o livro. Vivo disso. Não gosto de personagens insossos, sem sal nem açúcar. Escolho personagens polêmicos, contraditórios. Confesso que não esperava o sucesso que o livro está fazendo. Dou sorte na escolha dos meus temas. Penso que tem muito a ver com essa natureza adicional que adquiri nos dez anos de Jornal da Tarde, três anos de Veja, enfim, ao longo de minha trajetória profissional.
A França recebe a visita do escritor e sua filha Rita
EE FOI MAIS FÁCIL QUE SUAS OUTRAS BIOGRAFIAS PELO FATO DO PROTAGONISTA ESTAR VIVO? FM É muito mais difícil biografar quem está vivo, mas tem uma grande vantagem em relação aos mortos. Se eu tivesse tido a oportunidade de conviver um dia que fosse com Chatô ou com a Olga, qualquer um desses livros seria infinitamente mais rico. Tive a oportunidade de passar três anos com o Paulo. Teve período que fiquei seis semanas indo para a casa dele, às oito horas da manhã, tomava café com ele e só voltava para o hotel depois que ele ia dormir. Nada substitui essa riqueza. No livro Olga tudo que eu descrevo dela é de segunda mão, pois perguntei para pessoas como ela era, como ela falava etc. Com o Paulo não precisei perguntar para ninguém e isso é insubstituível. Ao mesmo tempo, me trouxe alguns conflitos éticos. Me perguntava até que ponto tenho direito de tornar público intimidades de um cara que me recebeu na casa dele e abriu as coisas dele para mim. Isso me fez muito mal. Até que pensei que não tinha direito de transferir para meus leitores uma censura que o próprio Paulo não me pediu. Mas foi muito custoso. Não quero mais biografar personagens vivos, agora quero só mortos e de preferência mortos remotos. Do século 18 para trás.
Com Ulisses Guimarães
EE FOI MUITO CRITICADO PELA ESCOLHA? FM Até hoje as pessoas se espantam com a escolha antes de ler o livro. Mas o que estou vendo é diferente do que pensava que seria. Pela primeira vez abri um site (www.fernandomorais.com.br/omago) para um livro e pelas mensagens que recebo consegui identificar dois tipos de leitores. O primeiro são os leitores do Paulo Coelho que nunca tinham ouvido falar em mim e que tinham comprado o Olga, porque viram na orelha do livro do Paulo e associaram ao filme. O segundo são leitores meus que torceram o nariz quando viram o livro e que depois de conhecerem ficaram com a intenção de ler Paulo Coelho. Agora, no meio jornalístico, a patrulha é grande e é movida pelo mesmo preconceito que esquarteja os livros do Paulo no Brasil há 20 anos.
Abaixo, troca autógrafos com o fotógrafo Alberto Korda
EE EM ENTREVISTA RECENTE, ELE DISSE QUE A BIOGRAFIA É PERFEITA, MAS PECA POR SE DETER MUITO AO LADO MATERIALISTA, CREDITANDO ISSO AO SEU ATEÍSMO. FM Ele disse que o meu olhar materialista não conseguiu enxergar determinadas partes obscuras da religiosidade dele e da sua espiritualidade. Eu acho que para o leitor – e eu penso sempre no leitor – é melhor que o Paulo Coelho tenha sido biografado por um materialista do que por um crente. Crente no sentido amplo da palavra, porque hoje virou sinônimo de evangélico. Por quê? Porque toda vez que ele invocava a espiritualidade para se referir a algum fenômeno acontecido com ele eu questionava. Então, ele dizia: “Estou no interior da França sozinho no carro, quando percebo que um anjo estava comigo e começava a falar”. Eu questionava se era um anjo material, com dimensão física, um vulto, uma luz... Esse anjo falava e em que língua? Em francês ou português? Por que isso tudo? Porque eu não acredito em anjo.
EXISTE A POSSIBILIDADE DO LIVRO VIRAR FILME? FM Tenho duas experiências opostas com adaptação de meus livros para cinema. Uma do mais absoluto sucesso que é Olga. Eu gostei muito. Quem não gostou foi a crítica. O povo adorou, deu quase quatro milhões de espectadores, recebeu prêmios fora do Brasil, foi indicado para o Oscar e popularizou um tema que era privilégio dos lidos. A outra é o Chatô que está pronto. Segundo o Guilherme (Fontes, diretor do filme) com quem continuo tendo relações fraternas, o filme está precisando de muito pouco para ser finalizado, mas não consegue dinheiro para terminar. O Corações Sujos está em pré-produção e será dirigido pelo Vicente Amorin, que foi quem dirigiu O Caminhos das Nuvens, com o Wagner Moura. Os direitos do livro Montenegro está vendido para o João Batista de Andrade e O Mago já está em negociação.
Acima, o bebê Morais.
EE COELHO DISSE TAMBÉM QUE O LIVRO É MAIS MATERIALISTA, PORQUE VOCÊ ACREDITA EM FIDEL CASTRO. AINDA ACREDITA EM FIDEL? FM Claro. Não mudou nada. Dizer por que eu continuo solidário à revolução cubana levaria umas dez horas. Mas como acho que há determinados símbolos que justificam aquela frase que uma imagem vale mais que mil palavras, quero falar de um outdoor que existe em Cuba, no aeroporto de Havana, que foi colocado quando o Papa visitou o país, que diz o seguinte: “Esta noite em todo o mundo, 200 milhões de crianças vão dormir na rua. Nenhuma delas é cubana”. Que país pode dizer isso? Estados Unidos? Vá ver as ruas de Nova York. França? Morei dois anos em Paris e da janela da minha casa dava para ver famílias, num inverno de dez graus negativos, dormindo embaixo das pontes do centro. Fui ao Japão algumas vezes divulgar o livro Corações Sujos e nas ruas de Tóquio você via homeless, velhos e crianças dormindo em casinhas de papelão. Agora, você conseguir uma coisa dessas num país que tem o PIB da Daslu e que sofre uma ameaça de agressão permanente... As pessoas dizem que é paranóia de comunista achar que os Estados Unidos vão invadir Cuba. Pô, invadiram o Iraque que é do outro lado do planeta. De Cuba a Miami a distância é a mesma que de São Paulo a Piracicaba. Não precisa de mísseis intercontinentais, são 160 quilômetros. É o paraíso, o lugar ideal? Lógico que não.
EE E COMO VOCÊ VÊ O MOMENTO POLÍTICO DA AMÉRICA LATINA? FM Estou com Cuba, assim como estou com o Chávez [Hugo Chávez, presidente da Venezuela], que está fazendo uma revolução. É o fenômeno político latino-americano mais importante desde a revolução cubana, por uma série de razões. Em primeiro lugar fez uma revolução pacífica. Não tem um preso político na Venezuela, nenhum. Não tem censura. Se você entrar nas páginas dos principais jornais do país na internet verá insultos ao Chávez na primeira página.
EE EM CUBA ISSO NÃO EXISTE... FM Não. Em Cuba não tem liberdade de expressão, porque está em guerra com os Estados Unidos. Se deixar abrir canal comercial de televisão, no dia seguinte os Estados Unidos montam um e levam o melhor equipamento gráfico do planeta para poder dinamitar a revolução. Acabem com o bloqueio. É o primeiro pré-requisito para se pensar em algum tipo de avanço em Cuba nesse sentido.
EE VOCÊ AFIRMOU EM ENTREVISTA QUE LULA ERA A ÚLTIMA ESPERANÇA PARA SUA GERAÇÃO. SUAS EXPECTATIVAS SE CONFIRMARAM? FM Não é o governo dos meus sonhos. Mas é seguramente o melhor governo que o país já teve. Tirar dez milhões de pessoas do estado de miséria é uma revolução. Tem uma política externa exemplar, como há muito tempo não se via. O Lula está se qualificando – e se as coisas continuarem andando direito até 2010 – para entrar na história pela porta da frente ao lado de gente do tamanho de Getúlio Vargas. Mas ele podia ter feito mais. Primeiro: reforma agrária. Ele poderia ter assentado todos os sem-terra. É possível fazer isso. Nesse ponto não avançou. Na educação, tanto ele quanto Fernando Henrique, por razões opostas, tinham que ter compromissos infinitamente mais profundos. O Fernando porque viveu de livros. Criou a família com dinheiro vindo dos livros, pois é um intelectual. O Lula pelo oposto. Um sujeito que chega à presidência da República tendo apenas o curso primário tem obrigação de dedicar energias adicionais a uma revolução na educação para evitar que outros brasileiros passem pelo que ele passou. Você vai encontrar coisas pontuais boas, tanto no governo do Fernando quanto no do Lula. O Lula está dizendo um negócio agora que está me enchendo de esperança que é a utilização do dinheiro da extração do petróleo pré-sal para fazer uma revolução na educação no Brasil. É disso que estamos precisando.
Nesta foto, na Transamazonica, sem a famosa barba
EE VOCÊ TAMBÉM JÁ SE ENVOLVEU COM POLÍTICA (FERNANDO FOI DEPUTADO ESTADUAL POR DOIS MANDATOS E SECRETÁRIO DA CULTURA E DA EDUCAÇÃO DO ESTADO DE SÃO PAULO). FM A política é uma doença. Algumas pessoas já nascem com ela. Achava que não iria me envolver mais até que em 2002 o PMDB me chamou para ser candidato a governador de São Paulo. Topei. A gente tinha sete minutos de tempo na televisão e esse tempo era uma eternidade. Os melhores anúncios da história da publicidade são de 15, 30 segundos. Durante 53 dias, sem fins de semana ou feriados, visitei quase todas as cidades do estado. Quando faltavam quatro dias para começar o horário eleitoral, que era meu único instrumento para sair do traço nas pesquisas, o marqueteiro me informa que meu tempo seria utilizado pelo Orestes Quércia, candidato a senador, que já tinha o tempo dele garantido por lei. Fui conversar com o Quércia que disse que a prioridade era do partido. Respondi que ele deveria ter me avisado isso no dia que tinha me convidado para ser candidato e que não aceitaria que utilizassem meu nome para se usar o tempo na TV. Fiz uma carta para o TRE dizendo que estavam tentando se apropriar do meu tempo e que como não tinha poderes para reverter isso retiraria minha candidatura. Larguei tudo e fui fazer campanha para o Lula.
Encontro em Macondo: Gabriel Garcia Marques
EE VOCÊ ACHA POSSÍVEL O SURGIMENTO DE UM NOVO ASSIS CHATEAUBRIAND? DÁ PARA COMPARAR COM ROBERTO MARINHO? FM Não. Não há termos de comparação entre Chatô e Roberto Marinho. Além do poder de Chateaubriand ter sido maior, a forma de exercer era diferente. Roberto Marinho era um homem dos bastidores. Chateaubriand resolvia no revólver. Roberto quis desmoralizar o Brizola [Leonel Brizola, ex-governador do Rio de Janeiro], o que ele fez? Botou a Globo para dizer que o Rio era a cidade mais insegura e violenta do mundo, e que o responsável por isso era o Brizola. Se fosse o Chateaubriand ele ia lá e daria uma surra de rabo de tatu no Brizola. A forma de exercer o poder de Chatô era de uma violência que não encontrava paralelo naquele lord inglês que era o Roberto Marinho. A história da Rede Globo é a história do adesismo. Chato, não. A trajetória dele com o poder é completamente diferente.
EE E COMO ENXERGA OS NOVOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO ATUAIS? FM Estou convencido de que a televisão como a gente conhece hoje acabou. Vai virar subnitrato de pó de traque. O que é que vai ser a televisão agora? Internet. A partir de agora você vai ser seu próprio Roberto Marinho. Se você pegar uma câmera que pode ser do próprio celular e abrir um sinal na internet – pode ser blog, site – qualquer pessoa no planeta que linkar ali sabe que pode te encontrar ao vivo e, se você tiver seguidores, terá audiência e, se tiver audiência, terá anúncio. Então, acabou a televisão. Por quê? Porque para montar uma estação de televisão você precisa de uma concessão que ou o governo te dá ou compra de alguém que já tenha por preços extorsivos, e depois precisa montar uma megaestrutura de equipamentos e serviços de pessoal que custam uma fortuna. Acabou isso. Não precisa mais de concessão de ninguém para ir para o ar. A televisão acabou.
Em campanha, na Praça da Sé
EE A ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS AINDA INTERESSA? FM Interessa. Poderia estar me vangloriando de minha derrota para o Marco Maciel dizendo que já vendi não sei quantos milhões de livros e ele não publicou nenhum, mas a academia, historicamente, não recebe só autores. Recebe personalidades. Getúlio Vargas era membro da Academia e nunca produziu nada além de decretos. Então, o fato de ter perdido para Marco Maciel não diminui a vitória dele. Se tiver uma nova oportunidade eu concorro novamente, mas acho difícil isso acontecer, pelo menos por hora, porque a biografia do Paulo acabou produzindo uma polêmica com os acadêmicos, porque o processo eleitoral dele na ABL foi complicado e eu conto no livro. Isso deixou uma ferida lá. Se uma cadeira vagar, ainda não será a minha vez.
"QUEM VEICULA CONTEÚDO SÃO JORNALISTAS, SÃO TEÓRICOS, SÃO PROFESSORES DE UNIVERSIDADE. O POETA SE DEFINE, SOBRETUDO, POR UMA CAPACIDADE DE CRIAR BELEZA COM LINGUAGEM"
Foi simplesmente maravilhoso. Pensei que nunca teria a oportunidade de ver/ouvir um medalhão do jazz. Digo medalhão das antigas porque cara é da estirpe de Miles, Gillespie, Coltrane, Wayne Shorter e por aí vai. O velho já está de passos lentos, quase se arrasta no palco, mas quando começa a disparar seus arpejos a terra treme. O primeiro contato que tive com seu som foi em 96. Eu estudava guitarra e achava que um dia poderia tocar como o Wes ou como Joe Pass. Aí descobri o Jim Hall. Guitarrista de uma sensibilidade absurda que resolvia um chorus com duas notas. Pois então, vi o disco (vinil que tenho até hoje). Um álbum duplo do Sonny acompanhado por um quarteto que ao invés de piano na sessão ritmica, tinha a guita do Jim Hall. Comprei sem pensar. Fui atrás do guitarrista e descobri um dos mais fantásticos tenores que já passaram por aqui. E ontem eu vi o cara.
to meio ausente daqui e peço desculpas a vocês três (sim, eu sei quem vcs são) que de vez em quando passam aqui prá saber de novidades ou velhidades - como no caso das bandas que posto por acá. sempre uma velhidade da hora... mas tá corrido. fui chamado prá ser editor do site e reporter da revista ELEELA e tá ducaralho o trampo. a galera é demais e tá todo mundo muito afim de fazer a revista virar e tenho certeza que vai virar sim.
tenho chegado em casa tarde e cansado demais prá escrever. ainda mais agora que estamos fechando a revista e tenho escrito quase que o dia todo. queria postar mais por aqui, mas por enquanto vai ser assim... atualizo de vez em quando.
Irineu andava se engraçando com Anita. Claudiney já tinha percebido e ficava puto toda vez que "o filha da puta" passava na mesa da gata e fazia uma brincadeira. Ficava mais puto ainda quando ela ria. Já tinha falado uma vez com a tia Mirtes sobre Anita. Com a mãe não. Dona Sonia morria de ciúmes do filho. A velha não tinha família e depois da morte do seu Osmar se agarrou à Claudiney como um náufrago se agarra a um tronco. A tia incentivava o sobrinho. Achava que ele “precisava arranjar uma companheira”.
Anita era morena. Pintava o cabelo com um louro platinado “igual da Marlim”. Era educada e atenciosa com todos, mas Claudy achava que com ele era diferente. Ela sempre perguntava se “não iria procurar uma namorada” e ele “na hora certa Aní. Na hora certa...”.
Seu Valdemar “com V por que com W é Ualdemar” era um dos Dois Irmãos do escritório. O outro, Vander, estava afastado com problema no coração. Duas safenas. O Tiozinho, como era carinhosamente tratado por seus funcionários, não gostava de namoros entre seus subordinados. Dizia que “isso é passível de demissão. Demissão!” Era rigorosíssimo quanto aos horários de entrada e saída da firma. Chegou a demitir o Gouveia do almoxarife por causa de 20 minutos de atraso. Dois dias depois, chamou-o de volta. O coroa tinha coração mole. Anita trabalhava diretamente com o Tiozinho e estava sempre sob a vista do chefe. Impossível qualquer aproximação. Para Claudiney, a sexta na Pizzaria seria a data perfeita para se encontrar com Aní fora do ambiente de trabalho e ainda por cima numa posição privilegiada: o artista da noite.